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O carro-prefeito

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2 de julho de 2012 | N° 9598

SÉRGIO DA COSTA RAMOS

  • O automóvel-prefeito

    Chegou a hora dos candidatos à prefeitura de Florianópolis deixarem um pouco de lado os meandros da política e das coligações com a habitual e execrável divisão de cargos futuros para pensar um pouco nos desafios do ambiente urbano.

    Será o tal BRT – onibus rápido com corredor de estações de transbordo alinhadas aos seus degraus de acesso – uma solução, uma boa rima ou só uma imitação de Curitiba?

    A geografia da Ilha-Capital não tem qualquer semelhança com a da plana Curitiba; os desafios aqui brotam do chão, do verdadeiro labirinto espremido entre o mar e a montanha.

    O labirinto da Ilha de Santa Catarina não se formou ao longo de milênios, como o da Ilha de Creta. Bastaram algumas décadas. Um videogame na forma de enigma foi caoticamente planejado em Floripa nos últimos 40 anos, quando o aterro da Baía Sul nasceu para se transformar em… garagem de ônibus.

    Floripa cresceu com o requinte de resultar numa cidade ainda pequena, mas com todos os inconvenientes de uma grande metrópole.

    Cidade insular e portuária – sem portos ou transporte marítimo –, sobre a Ilha se abateram todas as pragas do progresso predatório. Pior: um progresso deformado, associado ao carrapato de uma ecoteologia caolha, que acaba provocando exatamente o que deveria evitar: a degradação ambiental.

    Some-se a todos esses males o da “monocultura” automotiva, velha arteriosclerose do Brasil, com direito a incentivos fiscais. Dá mais carro em Floripa do que chuchu na cerca ou urtiga em campo de ervas daninhas. Nas ruelas da velha Desterro não cabem mais carros. Ironia: no mar que abraça a Ilha, faltam barcos.

    – Sobra mar pra poca batera, mo Deugi… – arenga um mané, com gosto de sal na boca e maresia no coração.

    Um estudo acadêmico chegou a revelar que Floripa é, proporcionalmente, a cidade de menor mobilidade urbana dentre as 27 capitais brasileiras. Pior: é a vice-campeã de engarrafamentos em todo o mundo, superada apenas por uma conflagrada cidade tailandesa.

    Na Ilha, os bebês já nascem com quatro rodas. E automóveis dão em árvore, já madurinhos. Ou em até 60 meses, a perder de vista. Uns e outros já nascem no limitado berçário citadino: ruas e ruelas comprimidas entre o mar e a montanha, ladeiras e baixios.

    O automóvel pode não ser um animal domesticável. Mas existe. Come, metaboliza, excreta, respira, move-se e reage a estímulos externos, governados por este homo-transitus, que nada tem de cordial.

    Caberá a um administrador sério criar um sistema para – mesmo ao peso de natural impopularidade – começar a “hierarquizar” o trânsito em benefício do transporte coletivo, penalizando, pecuniariamente, o acesso ao centro da cidade e ao seu entorno.

    Traduza-se: limitar o uso do automóvel na Ilha, sob pena desse “animal” assumir a prefeitura e governar por um único decreto: o do engarrafamento permanente, sem começo, meio ou fim.

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Written by danielbiologo2

julho 12, 2012 às 1:31 pm

Publicado em Textos recebidos

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